quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Cachorros podem ter Alzheimer?

Bichos mais velhos também estão sujeitos ao declínio cerebral. Nosso colunista explica essa história e no que ficar atento em casa

 
O aumento da longevidade dos cães observado nas últimas décadas fez com que algumas doenças típicas de animais idosos se tornassem mais prevalentes na medicina veterinária. A exemplo do que acontece em nós, humanos, problemas como diabetes, insuficiência cardíaca e insuficiência renal são cada vez mais frequentes nos velhinhos de quatro patas. Mas e o Alzheimer, que tanto nos preocupa em função do envelhecimento da população? Será que algo similar existe no mundo animal?
Pois saiba que cachorros podem sofrer com uma condição chamada Síndrome da Disfunção Cognitiva (SDC), popularmente conhecida como Alzheimer canino. Estudos recentes mostram que a incidência vem aumentando, e sabemos que o envelhecimento constitui fator determinante para o aparecimento e progressão da doença.
Uma pesquisa com 189 cães demonstrou há pouco que 28% dos animais entre 11 e 12 anos de idade apresentavam algum sinal da síndrome. Entre os cães com idades entre 15 e 16 anos o número de acometidos saltou para 68%!
E como reconhecer essa doença? Como identificar seus sinais? No mundo animal, de fato, fica mais complicado detectar alterações já que nossos amigos não se expressam falando. No entanto, os donos de cães idosos podem ficar alertas para indícios importantes de mudança comportamental, como urinar ou defecar em locais não habituais, portar-se de maneira não usual ao interagir com outros bichos ou pessoas, tornar-se muito agressivo ou, por outro lado, apático.
A qualidade do sono também pode ser afetada e o animal não raro apresenta períodos mais prolongados de vigília ou sono. A desorientação espacial, por sua vez, costuma vir acompanhada de dificuldade para percorrer rotas conhecidas, distinguir a saída da casa ou prever a hora da alimentação. Perda auditiva, redução da acuidade visual, olhar fixo e diminuição da resposta a comandos aprendidos são outros sinais de alteração neurológica correlacionados à síndrome.
Diante de suspeitas, a recomendação é procurar um especialista. O diagnóstico é realizado por um neurologista veterinário, que descartará outras condições por meio do exame clínico, testes de sangue, tomografia e ressonância magnética, além da resposta ao tratamento instituído.
Algumas medicações podem ser usadas para melhorar o impulso da transmissão entre os neurônios, outras atuam aumentando a vasodilatação cerebral (isto é, o aporte de sangue e nutrientes ao cérebro). Costuma-se associar aos remédios uma dieta especial para retardar a progressão do declínio neurológico. Alimentos ricos em antioxidantes, como vitaminas E, C e do complexo B, a gordura ômega-3 e o aminoácido L-carnitina tendem a ingressar no cardápio.
Inclusive, pensando nesse nicho, a multinacional suíça Nestlé lançou recentemente no Brasil uma ração específica para cães com alterações neurológicas, a Proplan Neurologic Care, primeiro produto com essa indicação no mercado pet mundial. Enriquecida com ácidos graxos de cadeia média, oferecem uma fonte alternativa de energia para melhorar a função cerebral. Segundo o fabricante, resultados de melhora de sintomas neurológicos podem ser observados em até 90 dias do início da nova dieta.
Nesse meio tempo, diante do crescimento das doenças neurodegenerativas entre os bichos mais idosos, estudos têm sido realizados com o objetivo de incrementar o diagnóstico e o tratamento. Tudo para ampliar a qualidade de vida dos pets que entram ou entrarão na terceira idade.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

“Fonte da juventude” é achada no intestino de idosos saudáveis

Estudo foi atrás do que pessoas mais velhas e cheias de saúde têm em comum com gente de 30 anos ou menos para descobrir as bases da longevidade

Como envelhecer com saúde? Essa pergunta é tão importante quanto difícil de ser respondida. Sabemos que estilo de vida é tão crucial quanto a genética, mas não o quê, exatamente, faz a diferença entre uma velhice difícil e uma velhice saudável.
Foi exatamente isso que um estudo sino-canadense se propôs a investigar. Eles reuniram mais de mil voluntários chineses, de 3 a 100 anos. Todos eles tinha uma coisa em comum: eram muito saudáveis para sua faixa etária.
O que os cientistas queriam entender, especificamente, era o que os idosos com a saúde acima da média tinham em comum com os voluntários mais jovens que também eram supersaudáveis. E encontraram semelhanças enormes no intestino deles: os quase centenários tinham a flora intestinal (ou microbiota) quase idêntica a dos voluntários de 30 anos.
Vale lembrar que, no nosso intestino, carregamos a maior concentração de micro-organismos encontrada no corpo humano. Esse conjunto de bactérias é altamente personalizado e pode ter uma baita influência no metabolismo e no bem-estar em geral
O que acontece é que, conforme envelhecemos, a diversidade da microbiota diminui. Se há um desequilíbrio, bactérias oportunistas podem ganhar espaço excessivo e provocar estragos.
O que o novo estudo descobriu é que essa queda na biodiversidade do intestino não é obrigatória – e que a microbiota que se mantém tão diversa quanto a de um corpo 60 anos mais jovem está fortemente associada a uma saúde melhor para o corpo inteiro.
Como sempre, ainda falta entender se é uma questão de causa ou consequência. Será que os idosos com um estilo de vida saudável vivem melhor e, portanto, tem uma microbiota mais diversa? Ou então seria ao contrário: as bactérias do intestino (que são tão essenciais) ajudam a manter o corpo todo em melhor estado?
A resposta dessa pergunta é essencial para entender quão longe se deve ir para alcançar as mesmas condições intestinais do idosos supersaudáveis.
A opção mais simples, é claro, são mudanças na alimentação e probióticos, mas tem médicos apostando tanto na importância do intestino para o organismo que testam transplantes fecais para “reviver” a flora intestinal de pessoas com problema de saúde. E você, aceitaria um supercocô para melhorar seu organismo?

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Quase um pâncreas: nova tecnologia promete ajudar os diabéticos

O dispositivo, apelidado de "pâncreas artificial", dá conforto aos pacientes afasta o risco de complicações, como hipoglicemia

  A empresa de tecnologia Medtronic acaba de lançar no Brasil o Sistema MiniMed 640G, uma espécie de pâncreas artificial concebido para pessoas com diabetes tipo 1. Ele faz a monitorização constante do organismo e libera doses de insulina, responsável por colocar o açúcar dentro das células — os portadores da condição não produzem esse hormônio.
Caso o aparelho perceba uma diminuição da glicemia, interrompe automaticamente o funcionamento da bomba. Assim, evita que episódios de hipoglicemia deem as caras e causem encrencas sérias. “O sistema está mais indicado para crianças, gestantes, pessoas com grande variação nas taxas ou quedas muito severas da glicose e aquelas com problemas nas terminações nervosas”, lista o endocrinologista Marcio Krakauer, da Sociedade Brasileira de Diabetes.
Pâncreas artificial para diabetes
(Ilustração: Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital)

Altos e baixos

Confira as taxas-limite de glicemia para se manter em segurança
Hipoglicemia
Abaixo de 70 mg/dl
Faixa normal
Entre 70 e 140 mg/dl
Hiperglicemia
Acima de 140 mg/dl

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Suor excessivo nas axilas pode ser doença

Solução vai de remédio até operação

Rio - Aquele cheirinho indesejado nas axilas pode ser um sinal de doença de pele. A bromidrose se instala no corpo quando há umidade gerada pelo suor excessivo, causando condições favoráveis à proliferação de fungos e bactérias. O problema, que atinge homens e mulheres, gera constrangimento e deixa até marca nas roupas, mas a boa notícia é que tem solução. Para eliminar de vez o mau cheiro há desde intervenções cirúrgicas até aplicação de produtos farmacêuticos e dermatológicos.
Suor excessivo Arte O Dia
Segundo o médico cirurgião Ricardo Rocha, algumas pessoas têm um desequilíbrio no sistema nervoso autônomo que provoca o descontrole das glândulas sudoríparas, responsáveis pela produção do suor. Embora o fluído seja inodoro, a persistência dessa condição favorece a formação de colônias bacterianas nas áreas do corpo afetadas, o que torna o mau odor um problema crônico, agravado muitas vezes por fatores psicológicos, como a ansiedade.
"É uma daquelas questões para a qual a ciência e a medicina têm solução, mas não descobriram a causa. O problema é desencadeado por um gatilho, que não se sabe exatamente o que é. O nervosismo não faz a pessoa começar a suar acima do normal, mas faz ela não parar mais. É um ciclo vicioso", explicou.
Para resolver o distúrbio, alguns pacientes recorrem à injeção da toxina botulínica conhecida como Botox nas partes do corpo onde mais se transpira. O tratamento custa entre R$ 2,5 mil a R$ 3 mil e precisa ser feito repetido após um ano aproximadamente, pois perde o efeito à medida em que o tempo passa.
"A substância inibe a ação das glândulas e o paciente quase não transpira no lugar que fez a aplicação por mais ou menos um ano", disse o médico.
Estudante de Publicidade e Propaganda, David Mufarrej, 19 anos, sofria com o suor excessivo nas axilas e optou por fazer o tratamento com Botox há cerca de um ano. Hoje se prepara para fazer novamente o procedimento. "O que mais me incomodava era a marca nas camisas. Tudo piorava em situações que eu ficava nervoso ou ansioso. Mas o tratamento deu certo. Agora só passo desodorante dermatológico", declarou David.
O uso de talco antitranspirante, antibióticos, sabonetes e cremes antibacterianos também ajuda a solucionar o problema. Ricardo Rocha ainda recomenda banhos, reaplicação do desodorante e troca de roupa no meio do dia, para evitar que fungos e bactérias se espalhem. "Em geral, não há efeitos colaterais decorrentes desses tratamento mais convencionais, mas se houver alguma reação alérgica pontual, é possível contê-la com produtos diferenciados".
CUIDADOS NA PUBERDADE
Integrante da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Sílvia Rodrigues destaca a incidência do mau cheiro em jovens, principalmente os que iniciam a puberdade, fase em que há alta produção de hormônios. "O problema é mais comum do que se imagina. Mas muitas vezes não é nem por causa do suor ou do estágio da vida, e sim por conta de hábitos de higiene inadequados. Tem gente que deixa de se secar bem depois do banho, por exemplo. Os fungos se aproveitam disso". Os tratamentos para adolescentes são os mesmos usados em adultos, de acordo com Sílvia.
"Pessoas que têm familiares com esse problema são propensas a desenvolvê-lo, mas nada impede que ele surja sem que haja histórico familiar", afirmou Rocha.
Os pelos podem ser os vilões no combate ao mau cheiro, pois acumulam a umidade do suor e da água do banho. Desta forma, eles se tornam um ambiente fértil para fungos e bactérias se reproduzirem. Por isso, a depilação é necessária como parte do tratamento nos casos de pessoas com grande volume de pelos no corpo. O cuidado deve ser redobrado ainda mais em regiões onde o clima combina calor e umidade, pois o ambiente favorece ainda mais o suor.
Ao contrário do que muitos pensam, a bromidrose é transmissível, pois os agentes causadores bactérias e fungospodem aderir à superfícies dos tecidos que entram em contato com a pessoa infectada.
"É importante detectar e tratar o mau cheiro porque ele pode ser passado de pessoa para pessoa, quando ocorre compartilhamento de peças de roupa, por exemplo. Se isso acontecer, a pessoa que pega também precisa se tratar com um profissional", esclareceu o médico Ricardo.
O estudante David Mufarej sofria com o suor e optou pelo botox Divulgação
Cirurgia impede transpiração, mas existe efeito colateral 
Aquele cheirinho indesejado nas axilas pode ser um sinal de doença de pele. A bromidrose se instala no corpo quando há umidade gerada pelo suor excessivo, causando condições favoráveis à proliferação de fungos e bactérias. O problema, que atinge homens e mulheres, gera constrangimento e deixa até marca nas roupas, mas a boa notícia é que tem solução. Para eliminar de vez o mau cheiro há desde intervenções cirúrgicas até aplicação de produtos farmacêuticos e dermatológicos.
Segundo o médico cirurgião Ricardo Rocha, algumas pessoas têm um desequilíbrio no sistema nervoso autônomo que provoca o descontrole das glândulas sudoríparas, responsáveis pela produção do suor. Embora o fluído seja inodoro, a persistência dessa condição favorece a formação de colônias bacterianas nas áreas do corpo afetadas, o que torna o mau odor um problema crônico, agravado muitas vezes por fatores psicológicos, como a ansiedade.
"É uma daquelas questões para a qual a ciência e a medicina têm solução, mas não descobriram a causa. O problema é desencadeado por um gatilho, que não se sabe exatamente o que é. O nervosismo não faz a pessoa começar a suar acima do normal, mas faz ela não parar mais. É um ciclo vicioso", explicou.
Para resolver o distúrbio, alguns pacientes recorrem à injeção da toxina botulínica conhecida como Botox nas partes do corpo onde mais se transpira. O tratamento custa entre R$ 2,5 mil a R$ 3 mil e precisa ser feito repetido após um ano aproximadamente, pois perde o efeito à medida em que o tempo passa.
"A substância inibe a ação das glândulas e o paciente quase não transpira no lugar que fez a aplicação por mais ou menos um ano", disse o médico.
Estudante de Publicidade e Propaganda, David Mufarrej, 19 anos, sofria com o suor excessivo nas axilas e optou por fazer o tratamento com Botox há cerca de um ano. Hoje se prepara para fazer novamente o procedimento. "O que mais me incomodava era a marca nas camisas. Tudo piorava em situações que eu ficava nervoso ou ansioso. Mas o tratamento deu certo. Agora só passo desodorante dermatológico", declarou David.
O uso de talco antitranspirante, antibióticos, sabonetes e cremes antibacterianos também ajuda a solucionar o problema. Ricardo Rocha ainda recomenda banhos, reaplicação do desodorante e troca de roupa no meio do dia, para evitar que fungos e bactérias se espalhem. "Em geral, não há efeitos colaterais decorrentes desses tratamento mais convencionais, mas se houver alguma reação alérgica pontual, é possível contê-la com produtos diferenciados".

*Reportagem do estagiário Gustavo Côrtes, sob supervisão de Angélica Fernandes

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Aprovado novo tratamento contra dois tipos agressivos de câncer

Medicamento recém-liberado pela Anvisa reforça o arsenal de recursos para combater tumores no pulmão e na bexiga

Considerada pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica como o maior avanço contra o câncer em 2017, a imunoterapia é a aposta da farmacêutica Roche no controle de casos em que a doença acomete o sistema respiratório ou o urinário. Seu novo lançamento no Brasil – o remédio atezolizumabe – segue os princípios dessa nova forma de combater a doença, ajudando o próprio organismo a detectar e agredir as células cancerosas em vez de tentar atacar o tumor diretamente.
Aprovada esta semana pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a molécula da vez é indicada para os seguintes cânceres: carcinoma urotelial, que afeta a região da bexiga, e o CPNPC, que se desenvolve a partir de células específicas do pulmão. Em ambos os quadros, a droga – aplicada na veia – só entra em cena se o paciente não responder bem a alternativas como a quimioterapia.
Em um dos estudos que justificaram sua liberação, o tratamento foi colocado à prova em 1 225 pacientes de várias partes do mundo. O aumento da média de sobrevida entre esses voluntários foi de aproximadamente 13,8 meses – o equivalente a 4,2 meses a mais do que o registrado com a quimioterapia.
Tal eficiência foi comprovada frente a tumores avançados, que se espalharam para outras áreas. É algo digno de nota, em especial se considerarmos que o subtipo de câncer de pulmão tratável com o atezolizumabe representa até 85% dos diagnósticos de sua categoria.
Mais: é difícil de identificar o tal CPNPC precocemente. Afinal, ele ganha espaço lentamente e, via de regra, seus sintomas demoram a se manifestar. Fora que tosse, dor no peito, rouquidão e por aí vai são comumente negligenciados.
A questão, agora, é discutir o acesso desse e de outros imunoterápicos para a população como um todo. Hoje, nenhum deles está disponível na rede pública.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

7 pontos mais importantes para a saúde de crianças e adolescentes

Manifesto reúne as principais medidas que devem ser adotadas a fim de garantir o bem-estar dos mais de 60 milhões de brasileiros com até 19 anos

  Crise econômica. Poucas vezes se falou tanto sobre esse assunto quanto agora. E é com base nesses debates acalorados que a Sociedade Brasileira de Pediatria acaba de divulgar tópicos que seus membros consideram fundamentais para o desenvolvimento de crianças e adolescentes.
O posicionamento alerta para o impacto do cenário atual no bem-estar dos brasileirinhos, além de sugerir melhorias em campos como direitos humanos, segurança pública e relações familiares. Abaixo, listamos as que estão diretamente ligadas à saúde. Confira:
1. Na rede pública, a quantidade de leitos de internação deve ser suficiente para atender à demanda de crianças e adolescentes.
2. Medicamentos e outros insumos essenciais para um bom atendimento em hospitais, postos de saúde e afins precisam estar à disposição.
3. Pais ou responsáveis têm de manter o calendário de vacinação dos filhos em dia.
4. Pediatras são os protagonistas da assistência a crianças e adolescentes.
5. Amamentação, alimentação saudável, atividade física e outros bons hábitos devem ser incentivados por meio de campanhas de conscientização, criação de espaços e suporte profissional.
6. Questões de segurança infantojuvenil precisam estar entre as prioridades para evitar mortes, acidentes, traumas e exploração.
7. Ao ver televisão ou navegar na internet, crianças e adolescentes devem ser protegidos de conteúdos sexuais, violentos ou impróprios.
O que achou desses tópicos? Dê sua opinião!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A quantidade de exercício físico que afasta a depressão

Até 12% dos casos desse problema psiquiátrico poderiam ser prevenidos com um pouco de atividade física por semana

 
Pesquisadores do Reino Unido, Austrália e Noruega concluíram que uma hora de exercício por semana é o mínimo necessário para evitar que você desenvolva depressão.
O estudo analisou dados da população norueguesa de um amplo levantamento conduzido entre os anos de 1984 e 1997. O objetivo era avaliar a relação entre a atividade física e problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.
Antes desse trabalho, já se sabia que o exercício minimizava os efeitos negativos da depressão. Mas esse estudo liga a atividade à prevenção dessa condição. E, de quebra, oferece uma estimativa do mínimo necessário para colher esses frutos.

Segundo o levantamento, 12% dos casos de melancolia profunda poderiam ser evitados se todas os voluntários suassem a camisa por ao menos uma hora na semana. E outra coisa bacana: pelo visto, mesmo intensidades leves já dão conta do recado.
Para conduzir o estudo, foram analisados dados de 33 908 mil pessoas sem registros prévios de problemas de saúde mental. Elas foram observadas, em média, por 11 anos.
Este conteúdo foi publicado originalmente no site da Exame.com

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O mal que mais mata nas UTIs brasileiras

Metade dos internados em instituições públicas e privadas com infecção generalizada morre. Por que o Brasil não consegue controlar a sepse?

RAFAEL CISCATI
Quando Tancredo Neves morreu, em abril de 1985, os jornais informaram que o presidente sofrera “um processo infeccioso abdominal”. Por 38 dias, o país acompanhou apreensivo a trajetória de deterioração da saúde do presidente, que nem sequer chegara a tomar posse – de como suas dores abdominais evoluíram para um quadro de insuficiência renal e cardíaca. Tancredo morreu no dia 21. Ele foi uma das muitas vítimas ilustres da sepse, antigamente chamada septicemia e popularmente conhecida como infecção generalizada. Mais de 30 anos depois, o mal que matou Tancredo ainda é o que mais mata nas UTIs brasileiras. Segundo uma nova pesquisa feita em todo o país, o problema afeta, de maneira similar, instituições públicas e particulares – e mais de 20% delas não contam com estrutura mínima para tratar adequadamente dos doentes.
Pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI): metade dos pacientes com sepse morrem nos hospitais brasileiros (Foto: Thinkstok)
A sepse ocorre quando o organismo reage de maneira exagerada a uma infecção que não consegue combater. Há casos em que o problema inicial parece banal – como uma infecção urinária. Na tentativa de expulsar o invasor – ou quando a pessoa não recebe o tratamento adequado –, o corpo dá início a um processo inflamatório violento que acaba por comprometer seu próprio funcionamento. Se diagnosticada ainda nos estágios iniciais, a sepse pode ser controlada. Mas não é esse o destino da maioria das pessoas que, no Brasil, sofre com a doença.
Segundo um levantamento organizado por pesquisadores da Universidade  Federal de São Paulo (Unifesp) e do Instituto Latino Americano de Sepse (Ilas), ao menos 30% dos leitos de UTIs no país são ocupados por pacientes com a doença. Desses, 56% acabam morrendo. Dos 420 mil casos tratados por ano, 230 mil terminam em morte. É muito: nos Estados Unidos, por exemplo, 29% dos doentes com sepse morrem. “É um problema mais fatal que infarto do miocárdio”, diz Flávia Machado, professora da Unifesp e uma das coordenadoras do novo estudo.
Fatal e, até agora, pouco compreendido. O levantamento organizado por Flávia, publicado na revista científica The Lancet, foi o primeiro a apontar, de maneira acurada, qual o alcance da sepse no Brasil.  Para fazer isso, os pesquisadores dividiram o país em 40 regiões. Coletaram os dados de 15% das UTIs em cada uma dessas regiões até chegar ao número de 230 instituições participantes. Eram UTIs públicas e privadas, com perfis econômicos variados. O esforço resultou na amostra mais representativa já examinada sobre o assunto no país: “Nos trabalhamos anteriores, acabavam participando somente as melhores unidades”, diz Flávia. Esses estudos com instituições-modelo criavam um retrato enganoso e apontavam que cerca de 40% dos pacientes com sepse morriam – e não os 56% descobertos. Flávia constatou, ainda, que o problema afeta, igualmente, instituições públicas e privadas. Nas públicas, 56% dos pacientes morrem. Nas privadas, 55%.
Os números ruins do Brasil são resultado de uma combinação infeliz de fatores que, dentro e fora das UTIs, atrasam o início do tratamento e comprometem seus resultados. Dentro das UTIs, pesa contra os pacientes a infraestrutura inadequada de muitas instituições. Os dados coletados por Flávia demonstram que elas estão mal preparadas para oferecer aos doentes cuidados básicos – como acesso aos antibióticos adequados e a outros itens simples, como soro fisiológico. A equipe de pesquisadores elaborou uma lista com oito desses itens e práticas importantes para o tratamento de sepse para avaliar a qualidade da infraestrutura oferecida pelas UTIs. Em 23% delas, faltavam dois ou mais dos itens essenciais. Eram instituições de “baixo recurso”, na classificação dos pesquisadores. “E estar internado em uma UTI de baixo recurso aumenta as chances de o paciente morrer”, diz Flávia. É esse o destino de 66% dos pacientes internados com sepse nesse tipo de UTI.
Mal sem distinções (Foto: Época )
Fora das UTIs, a falta de informação sobre a doença aumenta a letalidade do problema. De acordo com uma pesquisa Datafolha feita em parceria com o Ilas em março deste ano, 86% dos brasileiros jamais ouviram falar sobre sepse e não são capazes de reconhecer os sintomas da doença. São sinais como confusão mental, tontura, febre e sonolência, acompanhados por uma infecção. O resultado é que as pessoas demoram a procurar ajuda. Educar a população é importante porque, ao contrário do que comumente se pensa, quase metade dos casos de sepse começa fora do ambiente hospitalar: 40% dos pacientes desenvolvem o problema em casa.
Dos outros 60%, mais da metade desenvolve durante o atendimento de emergência ou durante a internação no hospital. Daí, vão para a UTI. “São casos que derivam de infecções por bactérias resistentes, presentes nesses ambientes”, diz Jorge Salluh, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do Instituto D’Or e especialista em medicina intensiva, que não participou da pesquisa. “A sepse é um problema que chama a atenção na UTI, porque é onde as pessoas morrem. Mas ele começa fora.” Nessas situações, é importante que a equipe do hospital esteja pronta para agir com presteza. O problema é que também lhe falta preparo: uma pesquisa feita pelo Ilas em 2010, com 917 médicos, concluiu que somente 27,3% deles eram capazes de diagnosticar a sepse. E que 44% não estavam preparados para diagnosticar a sepse grave, uma evolução do problema. Isso retarda o início do tratamento – e reduz as chances de sobrevivência. Do grupo acompanhado pelos pesquisadores da Unifesp, somente 53% dos pacientes receberam o antibiótico adequado já na primeira hora de manifestação da doença – uma prática considerada básica. Sinal de que o diagnóstico demorou a ser feito: “Em média, os hospitais levam seis horas para reconhecer que aquele paciente internado desenvolveu sepse”, diz Flávia.
Quando falta o básico  (Foto: Época )
Há maneiras de reverter esse quadro: “Nós temos bons exemplos, no Brasil, de hospitais que foram capazes de reduzir a mortalidade. E que podem servir de modelo”, diz Flávia. Outro estudo organizado por ela, e publicado ainda neste ano, mostrou que, por vezes, bastam intervenções simples. Flávia acompanhou um conjunto de 63 UTIs (25 públicas e 38 privadas) por quatro anos, enquanto elas implementavam programas de melhoria de qualidade. Ao fim desse período, 58% das instituições particulares tinham se tornado capazes de oferecer os antibióticos essenciais ao tratamento dos pacientes – e haviam reduzido a mortalidade de 47,6% para 27,2%. Nas instituições públicas, o resultado não foi tão bom – somente 15,7% delas, ao final dos quatro anos, eram capazes de oferecer esses antibióticos. Não houve redução significativa da mortalidade.
A percepção política do problema também parece mudar. No começo deste ano, a  Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a sepse como um problema global. Foi um passo importante: esse reconhecimento significa que a entidade passará a cobrar de seus países-membros políticas públicas específicas para a sepse para tratar do problema e informar melhor suas populações. “É preciso que se crie, para a sepse, a mesma cultura que se criou em torno do infarto do miocárdio”, diz Salluh. “Todo mundo sabe que as chances de uma pessoa que sofreu um infarto sobreviver aumentam se ela for atendida precocemente. O mesmo vale para a sepse.”
Para saber, alguns dos estudos citados:
* The epidemiology of sepsis in Brazilian intensive care units (the Sepsis PREvalence Assessment Database, SPREAD): an observational study
* Two decades of mortality trends among patients with severe sepsis: a comparative meta-analysis
* Survey on physicians’ knowledge of sepsis: do they recognize it promptly?

* Quality improvement initiatives in sepsis in an emerging country: does the institution’s main source of Income Influence the results? An analysis of 21,103 patients

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Saúde em pauta: papo de homem

Machismo e preconceito devem ser esquecidos quando o assunto é o combate ao câncer

Rio - Vamos ter hoje, leitor, um papo de homem para homem. Leitoras são bem-vindas na nossa prosa, mas a coluna se propõe a abordar um tema que tem a ver com os homens. E o machismo precisa ficar de fora da conversa. O preconceito, também. No Brasil, o câncer de próstata é o segundo mais comum entre os homens; fica atrás apenas do câncer de pele não melanoma. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estimou 61.200 casos novos de câncer de próstata em 2016.
O toque retal não vai dizer se você é mais ou menos homem Divulgação
Homens a partir dos 45 anos com histórico familiar e com 50 anos ou mais devem procurar o urologista. O profissional vai solicitar alguns exames como dosagem sanguínea do antígeno prostático específico (PSA) e ultrassonografia das vias urinárias e próstata. A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda ainda que esses homens realizem o toque retal, um exame simples e que dura poucos minutos. O médico, por meio desse procedimento, pode notar alterações na próstata, como aumento do volume, nódulos e modificações na consistência da glândula. Deixar de fazer esse exame pode custar caro. O toque retal não vai dizer se você é mais ou menos homem que o sujeito que está ao seu lado. E o urologista será capaz de orientá-lo para realizar exames mais conclusivos, por exemplo, a biópsia da próstata.
O câncer da próstata tem cura quando descoberto precocemente. Nem sempre o exame de sangue PSA é capaz de fechar um diagnóstico. Os tratamentos propostos variam: vão desde o acompanhamento da doença sem qualquer medicação por um tempo até a cirurgia ou o uso da radioterapia e outros medicamentos. E nas últimas décadas se avançou muito, aumentando ainda mais a chance de cura.
O mais importante, especialmente no Brasil, ainda é vencermos o preconceito dos homens procurarem o urologista. Infelizmente ainda são comuns os casos de câncer da próstata que chegam aos hospitais em estágios avançados, sem necessidade. O que podemos fazer para mudar essa realidade? Falar abertamente, como ocorre na campanha Novembro Azul, sobre uma questão que não tem nada a ver com sexualidade, e salvar vidas.
Quem assina o artigo é o dr. Carlos Eduardo, cardiologista

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Passionalismo, a nova doença urbana

Ao menor sinal de rejeição ou diante de um mero descontentamento, homens estão matando suas mulheres como nunca se viu no Brasil — e, em alguns casos, assassinam também os filhos e se suicidam

Crédito: Divulgação
TIROS NA MADRUGADAO casal Cláudia e Cristian: ela insistia para que o marido tomasse a medicação necessária; ele a matou a tiros e se suicidou (Crédito: Divulgação)
“Diz que eu não sou homem, diz agora que eu não sou homem, quem aqui não é homem?”, berrou diversas vezes André Luis Santos para Mizaelly Mirelly da Silva, uma jovem de vinte e dois anos. “Vo… cê não… é… ho… mem”, balbuciou Mizaelly com a frase entrecortada pela dificuldade de respirar ao estar sendo estrangulada. Seriam as suas últimas palavras. Morreu. O algoz foi seu namorado. Ao constatar que o corpo da parceira já estava inerte, André matou também o filho de sete meses. Fugiu. Foi preso pela polícia de São Paulo, onde o crime aconteceu. E confessou: “estrangulei porque eu não queria esse filho e ela não abortou”. O caso se deu no bairro do Jaguaré, predominantemente de classe média.
Um sofisticado condomínio no elegante bairro paulistano de Perdizes se transformou em palco de outro trágico e desesperador espetáculo de passionalismo na fria e garoenta madrugada do último domingo. O delegado de polícia Cristian Sant’Ana Lanfredi, em licença médica de seu cargo na Assembleia Legislativa de São Paulo devido a um severo quadro de depressão, saiu de seu apartamento com a filhinha de seis anos no colo e foi ao apartamento vizinho onde mora o padrinho da menina. Pediu então para que cuidasse da garota, alegando que sua mulher, a juíza do Trabalho Cláudia Zerati, acabara de abandonar o casamento, saíra do prédio e ele precisava localizá-la. A afilhada, assim que se viu em segurança, relatou outra história: sua mãe e seu pai haviam discutido muito porque ele se recusava a tomar a medicação antidepressiva prescrita pelo médico. Era tal o nervosismo da criança, que o padrinho pressentiu o pior. Desceu à garagem para conferir se os dois carros do casal estavam lá — e estavam. Chamou então o zelador, foram ao apartamento de Cristian e, coração na garganta, abriram a porta que estava destrancada: horror, sangue, morte. Segundo a polícia, Cristian matou a esposa com um tiro na testa e, na sequência, suicidou-se também com um tiro, disparado no lado direito da cabeça. Um dos relógios do apartamento marcava seis horas da manhã.
ESTÚPIDA EPIDEMIA
PURA PERVERSÃO O parceiro de Mizaelly a mandava falar “diga que não sou homem” enquanto a estrangulava. Ao vê-la inerte, matou o filho de sete meses
A cidade de São Paulo, a casa do Jaguaré e o condomínio das Perdizes são apenas um fechar de foco sobre um Brasil no qual se instaura e se espalha uma nova, estúpida, triste e psicótica epidemia — a epidemia da passionalidade. Em todo o País, nos últimos doze meses, estatísticas do Ministério da Justiça apontam que duas mil e oitocentas mulheres foram assassinadas por seus companheiros, numa questão de gênero, o chamado feminicídio. De volta a São Paulo, onde quatro mortes de mulheres aconteceram enquanto a polícia dava os primeiros passos na investigação do crime do condomínio já citado, estima-se que um feminicídio ocorra a cada quatro dias — setenta concentrados nos últimos meses, entre eles o que vitimou a auxiliar de enfermagem Nathalia dos Santos Silva. O criminoso fugiu.
Crimes passionais sempre aconteceram, e uma de suas motivações prevalentes é o ciúme — ou seja, o tolo ditado de que “o ciúme é o perfume do amor” pode até ser verdadeiro, mas desde que tal sentimento se mantenha num contorno de racionalidade. Fora disso não há fragrância, há cheiro de pólvora, vela e caixão. O que ocorre nos dias atuais, no entanto, é que o assassino mata a mulher, mata os filhos e, algumas vezes, se suicida, extinguindo da face da Terra o seu núcleo familiar — deixando-se claro que a maioria ainda prefere fugir. Mergulhando na mente dos que se matam após o crime, é como se fossem absurdas Medeias pelo avesso: na tragédia grega, a clássica personagem assassina os filhos para punir Jasão (que pretende abandoná-la), deixando nele a dor da perda das crianças. Quanto aos homens-Medeia do presente, eles punem a mulher, matando-a; punem os filhos, matando-os; e, paradoxalmente punem a si próprios, suicidando-se.
É inevitável que se indague a interlocutores e aos botões da nossa própria alma o que leva uma pessoa bem sucedida profissionalmente, família consolidada e situação financeira estável, a cometer homicídio seguido de suícidio. O que move as mãos para o gesto extremo e criminoso de matar? E a naturalidade da indagação vem do vício em considerar, numa imaginária escala de risco para esse tipo de comportamento, que a probabilidade de sua ocorrência esteja mais ligada a indivíduos em condições de vida simples e que não escalaram sequer a metade da pirâmide social. A resposta, quem nos dá, é a dura realidade, na medida em que apresenta aos nossos olhos tantos cadáveres de mulheres — e, eventualmente, de suas crianças. Tudo isso se deve à passionalidade que anda à flor da pele, à passionalidade que cega e vê numa rosa vermelha, por exemplo, não uma rosa vermelha, mas, sim, uma hemorragia. Vê no corpo da mulher que trai ou que parte não mais um corpo animado, mas, sim, um aboslutamentente nada.
No Rio de Janeiro, amigos e familiares do engenheiro Nabor Coutinho de Oliveira Júnior podiam esperar tudo na vida, menos que ele matasse a sua mulher, Lais Khouri. Pois ele a matou, e matou os dois filhos e se suicidou. A esposa morreu com facadas; as crianças a golpes de martelo; ele saltou do décimo oitavo andar do condomínio de altíssimo luxo em que a família morava na Barra da Tijuca. Faca, martelo, mergulho no ar, isso é mais que violência, é mais que a suprema irritabilidade a vazar pelos poros, é mais… não sei que nome dar. A sociedade está psicótica. E, caso após caso, a surpresa vem incomodar. O empresário Oscar Augusto Ferrão Filho, um dos sócios dos estacionamentos da Rede Park, atendeu mecanicamente o telefone que tocava, porque é assim que todos nós, acostumados a falar ao telefone, o atendemos. Veio a voz de seu irmão João Alberto. Veio a bomba atômica do terror e do macabro: “acabei de matar a minha mulher, a Renata, e agora vou me matar”. Um assessor da empresa correu à cobertura em que João Alberto morava no bairro paulistano do Itaim. Com certeza, gostaria de jamais ter visto o que viu: Renata estava tombada no closet com um tiro na cabeça; no andar de cima, na piscina, boiava, também já sem vida, o corpo do empresário. Em Recife, no bairro do Rosarinho (classe média alta), um namorado não aceitou na semana passada a separação amorosa e matou com crueldade a companheira (nomes preservados pela polícia). A não aceitação do final da vida a dois, aliás, vem sendo também motivo de crime, ao lado do ciúme, pagamento de pensão alimentícia e disputa pela guarda de filhos.
A MORTE PELO TELEFONE João Alberto telefonou para o irmão: “Acabei de matar a Renata (no detalhe), e agora vou me suicidar.”
Na cobertura em que moravam, um corpo tombou no closet, o outro, na piscina
País do feminicídio
Foi esse último fator, por exemplo, que disparou a ira e o revolver com que o PM Maurício Gama fulminou a ex-mulher Celina Mascarenha, na presença do filho. Quando o garoto lhe perguntou o porquê, ele respondeu com ironia e sarcasmo: “é para a mamãe descansar um pouco”. Há, no passado, dois episódios de passionalismo e irracionalidade que alimentaram até a mídia internacional: Doca Street matou a modelo Angela Diniz porque ela o traiu com outra mulher, e o cantor Lindomar Castilho assassinou a sua esposa Eliane de Grammont, porque ela já não o queria como marido. Existe, no entanto, um traço comum envolvendo esses delitos, independentemente de época ou gerações. Em todos eles, o homem feminicista é extremamente narcisista, coisifica a parceira e a transforma em sua propriedade. Não é incomum esse homem não estar nem aí para a mulher, enquanto ela permanece ao seu lado, mas desesperar-se e tornar-se violento se surgir uma ameaça de rompimento. Quando essa mulher, antes dominada e transformada em coisa (espelho narcísico do companheiro, pela psicanálise), cogita despedir-se da relação, o homem portador de tal transtorno vê sua “cristaleira de narcisismo” virar cacos. Não suporta isso, não crê que esses cacos se colarão novamente. E então mata na esperança de conseguir voltar a ser, ele mesmo, o seu espelho. O que está em jogo é prepotência e arrogância. Há no País uma estatística de tirar o ar: cerca de trinta por cento das mulheres assassinadas morreram nas frias mãos de seus parceiros.
Qual a solução para isso tudo? É difícil. Desensandecer uma sociedade e desarraigar essa espécie de comportamento não é o mesmo que tocar meia dúzia de malucos que tomam banho nus em um chafariz público. Mas, pelo menos, sabe-se qual não é a solução — e isso já é muita coisa. No Brasil, decretos e leis brotam do nada e não resolvem, igualmente, nada. A Lei Maria da Penha e a criação do termo feminicídio, por si só, não mudaram e nem mudarão o quadro de passionalidade. Demagogicamente Dilma Roussef criou essa expressão, e daí? O número de mulheres agredidas e mortas só fez aumentar exponencialmente, chegando ao seu auge nas últimas semanas e, infelizmente, sinalizando que seguirá crescendo. O temperamento humano (um dos fatores genéticos que compõem a personalidade) não muda por decreto. Homens portadores de transtorno da personalidade narcísica não deixarão de ter baixíssimo limiar de tolerância ao verem negado, por uma mulher, o menor de seus carpichos. Com certeza, é hora de reabrir o clássico Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda. Ele definiu e explicou porque a “cordialidade brasileira” é passional, e, assim sendo, pode explodir para o bem ou para o mal. Loucamente estamos vivendo na segunda alternativa. Que o diga a dor eterna dos parentes das mulheres assassinadas, dos parentes dos filhos assassinados, e dos parentes dos assassinos suicidas.
TRAGÉDIA NA BARRA DA TIJUCA O engenheiro Nabor e seus dois filhos: ele assassinou as crianças a golpes de martelo, matou a esposa a facadas e saltou do décimo oitavo andar do prédio onde moravam
Dentro dos contornos da violência a massacrar o gênero feminino pelo único fato de ele ser feminino, embora no caso a seguir não se possa falar direitamente em passionalismo porque isso implica idade adulta, é estarrecedor o que se viu em Goiânia na semana passada. Um garoto de treze anos matou a facadas uma adolescente de catorze, sua vizinha e colega de escola. É influência dos tantos episódios de crimes passionais? O menino fez o que fez porque psiquiatricamente é portador de transtorno de conduta (indicativo de psicopatia na vida adulta)? É de tudo um pouco. À polícia ele disse que assassinou Tamires Paula de Almeida e carregava a mórbida intenção de “acabar com mais duas”. Disse ainda: “foi para ver de luto a sala de aula”. Agora prepare a cabeça, o coração e o estômago: “matei Tamires porque mulheres são mais fracas”. Brasil, é muita dor.
Com reportagem de Thais Skodowski

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Onde mais se faz exercício no Brasil – e o porquê

Mais que vencer a preguiça: estudo da ONU mostra como a desigualdade social do nosso país afeta a prática de atividade física e o sedentarismo

 
Se você é homem, branco, possui uma renda superior a 5 salários mínimos e concluiu o ensino superior completo, tem uma chance consideravelmente maior de fazer exercícios físicos com frequência. Quem atesta isso é um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), que coloca a desigualdade social como uma barreira considerável para ser fisicamente ativo no Brasil.
De acordo com a pesquisa, 37,5% dos brasileiros se envolveram com a prática de algum esporte pelo menos uma vez em 2015. Mas, entre os com renda igual ou superior a 5 salários mínimos, a proporção sobe para 60%. Esse dado é de 56,7% para quem tem ensino superior completo, versus 17% entre aqueles sem instrução formal.
A liberdade para a prática de exercícios físicos depende de três fatores: tempo livre, recursos financeiros e valor cultural da atividade física para a comunidade. Sem esses pontos, a chance de uma pessoa suar a camis frequentemente é menor.
“Os dados analisados reforçam a compreensão de que realizar atividades físicas não se restringe somente a uma decisão individual, mas é também produto de como a sociedade pauta a vida coletiva”, pondera o estudo.
Em outros termos: de nada adianta fazer campanhas que incentivem a movimentação no cotidiano “sem criar oportunidades efetivas para as pessoas se engajarem com essas práticas”.

Questões de gênero

Em geral, homens são mais propensos a praticar um esporte a do que as mulheres. No entanto, quando se envolve em uma atividade do tipo, a ala feminina a faz com mais frequência: 35% das que são ativas destinam tempo para a malhação de quatro a sete vezes por semana, contra 27,3% dos homens.

Estados

O Distrito Federal é a unidade da federação com menores taxas de sedentarismo, de acordo com o artigo. Por lá, metade da população afirmou que se envolveu com exercícios físicos no último ano. Não por acaso, estamos falando da unidade com o maior índice de desenvolvimento humano (IDH) do país.

Como mudar o quadro?

Em resumo, haveria uma “alta concentração do investimento privado” na promoção das atividades físicas no Brasil — o que corrobora a desigualdade. Em 2013, as famílias investiram 51 bilhões de reais em esporte. No mesmo ano, os clubes investiram 4 bilhões de reais e as empresas, 2,13 bilhões de reais. O governo federal, em contrapartida, financiou apenas 590 milhões de reais no setor.
“As políticas de promoção de atividades físicas e esportivas não podem estar focadas somente na responsabilização individual e na mudança de comportamento. Diversas condições estruturais causam impacto nessa prática. Assim, as políticas devem corrigir desigualdades, bem como pensar em soluções sistêmicas, com ênfase na participação e no controle social”, diz o texto.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Paciente descobre que 'tumor' era peça de brinquedo aspirada há 40 anos

Em um primeiro diagnóstico os médicos não hesitaram em dizer que poderia ser um câncer, mas após exames descobriram a real causa dos sintomas
O paciente explicou aos médicos que os Playmobils eram seus brinquedos favoritos na infância, e as peças pequenas acabavam se perdendo ( Foto: BMJ/O Globo )
FolhaPress
Um britânico de 47 anos, que não quis ser identificado, procurou um hospital na cidade de Preston após alguns sintomas preocupantes. Fumante, a tosse forte e o muco já o assombravam a mais de um ano - ele se recuperava, inclusive, de uma pneumonia.
O primeiro diagnóstico não foi muito animador. Segundo o jornal "O Globo", após uma radiografia detectar uma massa atípica em um dos pulmões, os médicos não hesitaram em dizer que poderia ser um câncer.
Mas, com uma bronquioscopia (exame que filma o interior dos brônquios) o "corpo estranho" pode ser identificado melhor. O tumor era, na verdade, um brinquedo aspirado pelo paciente há décadas.
Em um artigo publicado no "BMJ Case Reports" (plataforma para que médicos compartilhem pesquisas e estudos de caso), os médicos descrevem o objeto como um "cone de trânsito do Playmobil há muito perdido".
O paciente explicou aos médicos que os Playmobils eram seus brinquedos favoritos na infância, e as peças pequenas acabavam se perdendo. "Ele lembrou ter ganhado este conjunto de Playmobil de presente no aniversário de 7 anos, e acredita ter aspirado o cone de trânsito logo depois", afirmaram os médicos.
Assim que a miniatura, com cerca de 1cm, foi removida, o paciente se curou e o diagnóstico de câncer teve um final feliz. Como escreveram os médicos no artigo científico "os sintomas melhoraram e ele finalmente encontrou sua peça de Playmobil no último lugar em que poderia procurar".
Caso incomum
A inalação de peças de brinquedo por crianças é comum. No entanto, os efeitos e sintomas de tal ato são, normalmente, imediatos.
Segundo os autores do artigo, "um caso em que o conjunto de sintomas ocorra tanto tempo depois da aspiração é desconhecido". Este é o primeiro caso de um objeto estranho que permaneceu nas vias aéreas por 40 anos.
Os médicos explicam o motivo: "Talvez seja porque a aspiração ocorreu na infância e as vias aéreas foram capazes de se remodelarem e se adaptarem à presença deste corpo estranho."
No entanto, é importante reforçar que qualquer inalação ou ingestão de objetos por crianças devem ser avaliadas medicamente para que o pior não aconteça - nem pais nem filhos vão querer esperar quatro décadas para ver o resultado.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O que é o exame de eletrocardiograma

Para que serve esse teste (também chamado de ECG ou eletro) que mede a atividade elétrica do coração e quando você deve fazê-lo

O eletrocardiograma (ECG) é feito com um aparelhinho ligado a eletrodos que avalia o ritmo dos batimentos cardíacos em repouso. É um exame bem simples, usado rotineiramente tanto na triagem dos prontos-socorros quanto em checkups preventivos solicitados pelo cardiologista.

Para que serve

O objetivo é ver se há alguma falha na condução elétrica pelo coração. Ou seja, se existem bloqueios ou partes do músculo que não estão se movendo como deveriam, o que pode sinalizar problemas cardíacos.
O eletro é muito utilizado para flagrar arritmias e taquicardias ou bradicardias, quando o peito bate rápido ou devagar demais, respectivamente. Mas é um teste inicial. Ou seja, ele aponta possíveis suspeitas, que devem ser confirmadas com outros exames.

Como é feito

O indivíduo deita em uma maca e o médico espalha eletrodos para averiguar os impulsos elétricos de áreas diferentes do coração. A oscilação captada é conduzida ao eletrocardiógrafo, aparelho que durante cerca de cinco minutos registra a informação em gráficos impressos numa bobina de papel.
Para não comprometer a leitura, a pele deve estar limpa e livre de roupas. Já os eletrodos devem ficar bem fixados — por isso que, às vezes, a retirada deles pode doer um pouquinho.

Os resultados

O cardiologista interpreta as ondas do gráfico, identificando marcadores como cadência e frequência do coração. O ritmo considerado normal é entre 60 e 100 batimentos por minutos, mas há outros parâmetros contemplados pelo eletrocardiograma, como o tamanho e a duração das ondas em cada segmento.

Periodicidade

O exame pode ser solicitado tanto pontualmente, quando alguém dá entrada num serviço de emergência ou há suspeitas de doenças cardíacas, quanto como medida preventiva nos checkups anuais, em geral receitados por volta dos 40 anos.

Cuidados e contraindicações

Como é supersimples e nada invasivo, todos podem realizar esse exame. O eletrocardiograma também não precisa de um preparo prévio — nada de jejum ou algo do tipo.
Fontes: Ariovaldo Mendonça, patologista e coordenador médico do Grupo Hermes Pardini, em São Paulo, e João Vicente da Silveira, cardiologista do Hospital Sírio-Libanês (SP).

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

“Meu coração parou por 25 minutos”

Engenheiro sobrevive a quatro paradas cardiorrespiratórias e fica sem sequelas depois de ser submetido à hipotermia terapêutica, técnica que salva vidas e acelera a recuperação de pacientes enfartados

Crédito: Fabio Braga
NOVA CHANCE O engenheiro Carlos Neves e o aposentado Antônio Carlos (abaixo): graças às técnicas revolucionárias, eles sobreviveram (Crédito: Fabio Braga)
O engenheiro Carlos Alberto Neves sofreu um infarto enquanto dirigia em uma avenida movimentada de São Paulo. Depois de perder os sentidos e bater o carro, Neves foi ajudado por um policial militar que passava pelo local. A caminho do Instituto do Coração (Incor), o engenheiro teve outras quatro paradas cardiorrespiratórias. A mais severa delas durou 25 minutos. Nesse tempo, seu coração literalmente parou de bater. “Eu não lembro de quase nada”, diz. “Todos achavam que não sobreviveria ou que poderia ficar vegetando em uma cama. Quando voltei, minha família não acreditou. Posso dizer que nasci de novo.” Como isso foi possível? Neves foi submetido à hipotermia terapêutica, técnica ainda pouco difundida no País que, ao lado de outras inovações no tratamento a pacientes enfartados, pode salvar incontáveis vidas. Apenas no Brasil, ocorrem 720 paradas cardíacas por dia.
Crédito: Marco Ankosqui
A técnica consiste em reduzir a temperatura do indivíduo para até 32 graus, quando o normal é 36,5. O paciente é envolvido por uma manta fria ou, em algumas situações, por cubos de gelo espalhados pele corpo. O processo dura no mínimo 24 horas e tem como objetivo fazer o organismo trabalhar menos, reduzindo o seu metabolismo. “Hoje em dia é mandatório que pacientes que tenham sofrido paradas cardiorrespiratórias passem por esse procedimento”, diz Sergio Timerman, diretor do Centro de Treinamento em Emergências do Incor e um dos responsáveis pela chegada da nova técnica ao Brasil. “O procedimento permite que o indivíduo tenha uma recuperação melhor, menos agressiva e fique quase sempre sem sequelas neurológicas permanentes.”
Redução de danos

Outro procedimento promete ser ainda mais eficaz. Nele, a pessoa é submetida a um cateterismo que induz a hipotermia em no máximo 18 minutos. O cateter é inserido na veia femural (que fica na perna) e, antes de chegar ao coração, resfria o sangue do paciente para uma temperatura entre 32 e 34 graus. Segundo Timerman, essa técnica reduz os impactos do infarto. “O procedimento melhora o pós-operatório, evitando arritmia, cicatrizes grandes e um futuro AVC”, afirma. A diferença desse método é que, além de ser mais rápido, ele permite que o paciente fique acordado o tempo todo.
Vítima de um segundo infarto, o aposentado Antônio Carlos Ramos passou pelo procedimento no ano passado. Ao sair da igreja, sentiu dores no peito, ligou para o filho e pediu ajuda. Quando chegou ao hospital, já estava enfartando. “O médico informou ao meu filho que iram fazer o cateterismo que induz a hipotermia para preservar a integridade do coração”, diz Ramos. Depois de passar 10 dias na UTI, recebeu alta sem ficar com sequelas. Para Natali Giannetti, cardiologista do Incor, a técnica permite a independência do paciente depois da alta, já que na maioria dos casos é possível levar uma vida normal. “Acompanhamos os pacientes até o trigésimo dia depois do infarto e todos tiveram boa recuperação”, diz a médica.
INOVAÇÃO Diretor do Incor, Sergio Timerman foi um dos responsáveis por trazer a técnica ao Brasil (Crédito:Kelsen Fernandes)
Estudos publicados na Europa mostraram que a técnica diminui as sequelas em 35% dos casos. O procedimento foi aplicado em 50 pacientes entre maio de 2016 e fevereiro deste ano. Marko Noc, coordenador da pesquisa e chefe do Centro de Medicina Intensiva da Universidade de Ljubljana, na Eslovênia, ressalta a importância do tratamento. “Eu vejo a técnica como uma terapia adjunta, contribuindo para a diminuição da lesão e aumentando a recuperação do miocárdio”, disse à ISTOÉ. “Vale ressaltar que o que faz um infarto ser categorizado como menor é a melhora dentro de um ano e também não ter insuficiência cardíaca depois da alta”. Desde o ano passado, 32 pacientes foram submetidos no Brasil ao novo método de hipotermia.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

5 trocas saudáveis e gostosas para o café da manhã dos diabéticos

Nem pense em pular essa refeição. Dá para deixá-la bem apetitosa

Controlar as taxas de açúcar no sangue pode parecer um bicho de sete cabeças às vezes. Mas não dá para bobear. Manter os níveis sem grandes oscilações poupa as artérias, os olhos, os rins…
E algumas substituições no cardápio permitem aos diabéticos fazer uma boa manutenção da glicemia. Só que o cardápio não precisa ficar sem graça. “A refeição deve satisfazer a expectativa do indivíduo, e não ser vista como remédio”, diz Flora Spolidoro, da Day by Diet, em São Paulo.
Com isso em mente, veja sugestões de trocas para o café da manhã.

Pão com manteiga e café com leite por mingau

Veja bem, o clássico combo matinal não precisa ser abolido. Mas substituí-lo, vez ou outra, por um mingau bem completo pode agregar ingredientes protetores. A sugestão da nutricionista Maria Cecília Corsi é preparar uma receita com quinua, aveia, leite desnatado, castanha-do-pará e canela. Essa combinação entrega fibras, proteína e gorduras benéficas, num mix que favorece a manutenção do açúcar no sangue.

Pão francês por pão integral com sementes

Chia, linhaça e nozes são exemplos de alimentos que turbinam o pão com fibras e gorduras bem-vindas. Mas a receita também pode acabar calórica, daí vale maneirar na fatia. Olho vivo no rótulo para garantir também que a maior parte da farinha usada seja mesmo integral.

Iogurte integral com polpa por iogurte desnatado batido com suco

Livre de gordura, a versão desnatada é rica em proteína e contribui com doses de cálcio, mineral que, além de fortalecer os ossos, ajuda no controle da pressão. Não custa reforçar que o diabético deve zelar pelas suas artérias.

Flocos de milho por cereais sem adição de açúcar

Aposte em uma mistura variada de grãos, sem esquecer a festejada aveia. Coloque leite desnatado e, para arrematar, adicione frutas, que são redutos de vitaminas e minerais. Não bastasse economizar no açúcar, essa receita beneficia o intestino.

Suco de laranja por suco verde

Que tal bater couve, abacaxi e hortelã? A combinação hidrata e oferta poucas calorias – ao contrário do suco de laranja. Só não precisa cair na mesmice. A dica de Flora Spolidoro é variar, recorrendo também a hortaliças, como cenoura, pepino e agrião.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Muito além do fígado: hepatite C causa de depressão a diabetes

Essa infecção deflagra problemas que vão além da cirrose e do câncer. Mas a boa notícia é que os tratamentos modernos também combatem esses efeitos

De 100 pacientes infectados com o vírus da hepatite C, mais ou menos 80 não conseguem se livrar dele naturalmente. Desses, cerca de 25 vão apresentar lesões graves no fígado — a famigerada cirrose — em até 20 anos. Mas não faça pouco caso: além de os danos hepáticos serem letais, quase todos os enfermos que carregam esse inimigo no organismo vão sofrer com ele de alguma forma.
Quem chamou atenção para os efeitos menos conhecidos da hepatite C foi o hepatologista Jorge Daruich, da Universidade de Buenos Aires, na Argentina. “Nós falhamos em nos concentrarmos muito nos problemas causados no fígado. Eles de fato são perigosos, mas, como não aparecem desde o princípio, fizeram com que muita gente negligenciasse a hepatite C”, disse o especialista, durante uma palestra do 15º Seminário Latinoamericano de Jornalismo de Ciência em Saúde, sediado em Boston, nos Estados Unidos.
Essa encrenca, que acomete 71 milhões de pessoas no mundo — muitas das quais não sabem disso —, afeta do coração ao cérebro. Já há estudos contundentes mostrando que ela aumenta o risco de infartos e AVCs, para ser mais exato.
“Acreditamos que isso acontece porque o vírus gera uma inflamação no corpo inteiro, que provoca danos com o tempo”, explica Daruich. E que fique claro: isso ocorre mesmo se o fígado estiver funcionando plenamente.
Como se fosse pouco, há uma associação da hepatite C com depressão, cansaço e dificuldades cognitivas. Isso pode ter a ver com o sofrimento do diagnóstico, mas é fato que o vírus em questão consegue invadir o cérebro e incendiar a região. Segundo Daruich, nota-se entre os pacientes uma maior dificuldade de concentração e de realizar tarefas que exigem mais da massa cinzenta.
Diabetes, hiper e hipotireoidismo e até linfoma (um tipo de câncer) já foram ligados a essa infecção. “E há outras possíveis consequências. Precisamos tratar todos os pacientes, não só os com lesões hepáticas”, arremata Daruich.

Temos os recursos para vencer essa batalha

A grande notícia é que, nos últimos anos, vimos uma verdadeira revolução no tratamento da hepatite C. Se antes os médicos tinham remédios muito tóxicos e que exterminavam o vírus em não mais do que 50% dos casos, agora contam com drogas que oferecem uma resposta excelente em no mínimo 90% dos pacientes.
Essas opções já estão disponíveis no Brasil e, de quebra, ajudam a enfrentar a maioria das manifestações da hepatite C. “Só que isso depende também de quando iniciamos o tratamento”, pondera Daruich.
Indivíduos que recebem os fármacos em situações muito avançadas tendem a não reverter todas as consequências provocadas pela doença. Fora isso, se o paciente já desenvolveu diabetes, não vai “se curar” dele com os remédios para a hepatite C.
Conclusão: diagnóstico precoce é fundamental. Você já fez o teste para hepatite C?

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Teste diagnostica dengue, zika e chikungunya em cinco horas

Atualmente, são feitos três exames separados e os resultados podem levar até dez dias para serem obtidos
01:00 · 20.09.2017 por Vanessa Madeira - Repórter
Um projeto científico desenvolvido no Ceará pode dar resposta ao desafio da saúde pública de diagnosticar, de forma ágil, as principais epidemias do País: dengue, chikungunya e zika. Com altos custos e demora para obter resultados, os testes utilizados hoje no Estado têm se tornado empecilho para o tratamento adequado dos infectados e o planejamento de ações de vigilância. Para superar a dificuldade, pesquisadores criaram kits capazes de analisar as três arboviroses ao mesmo tempo e determinar, em poucas horas, qual delas se manifesta nos pacientes.
O teste rápido é fruto do trabalho realizado há cerca de um ano pela empresa cearense Greenbean Biotecnologia e coordenado pela professora Izabel Guedes, da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Segundo ela, o projeto tem por base a produção, em laboratório, de proteínas recombinantes dos vírus das três doenças e de reagentes específicos para cada uma delas. Esses reagentes, ao entrarem em contato com o sangue de pessoas infectadas, apenas terão efeito sobre as proteínas da arbovirose pela qual o paciente foi acometido. O resultado, conforme explica a professora, pode ser obtido em até cinco horas.
Vantagens
O método apresenta duas vantagens em relação aos exames atuais. Hoje, para chegar ao diagnóstico preciso, são necessários testes diferentes para dengue, chikungunya e zika. Além disso, os resultados podem levar até 10 dias para serem obtidos.
"A grande dificuldade é a demora para o diagnóstico. Quando ocorre, ao mesmo tempo, uma multivirose em Fortaleza, os sintomas se confundem e o medico saber qual é o vírus que está infectando o paciente. Isso tudo dificulta a conduta médica e também a recuperação do paciente, porque o médico tem que esperar o resultado do teste", afirma Izabel.
"Ainda tem a questão da vigilância. Se você souber de antemão se está circulando mais zika, mais dengue ou mais chikungunya numa determinada região, a vigilância pode tomar medidas e traçar estratégias mais eficientes", completa.
Além da maior rapidez, a utilização dos testes desenvolvidos no Estado reduziria custos. Os kits atuais contem reagentes importados, o que aumenta o valor do material. "Esse alto custo dificulta fazer diagnósticos durante uma epidemia, então apostamos em testes mais baratos, que tenham condições de testar maior número de pacientes ao mesmo tempo e dar resultado rápido", destaca Izabel.
Disponibilização
A coordenadora do projeto explica que os testes ainda estão em fase de experimentação, mas já apresentam resultados promissores. No entanto, não é possível definir quando poderão ser fabricados em larga escola e disponibilizado no Estado. A expectativa da equipe é que isso aconteça até o próximo ano.
"Esperamos que os testes tenham o interesse da Secretaria da Saúde, mas ainda precisa passar pela parte burocrática das boas práticas de laboratório, confirmações, análises estatísticas e outros processos", diz.
O último boletim de arboviroses da Secretaria de Saúde do Estado (Sesa), datado de 1º de setembro, revelou que, neste ano, já foram confirmados 20.884 casos de dengue (12 óbitos), 82.017 de chikungunya (87 óbitos) e 483 de zika. De acordo com o órgão, a distribuição dos casos acontece por todas as faixas etárias, com maior incidência entre adultos jovens e pacientes do sexo feminino.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Um respiro contra o câncer

Dois novos tratamentos para tumores de pulmão devem mudar o combate a esse tipo de doença

Um respiro contra o câncer
Duas novidades que devem mudar o combate ao câncer de pulmão, o mais comum no mundo, foram divulgadas na semana passada durante o congresso europeu de oncologia (Esmo), em Madri. A primeira delas combate a doença num estágio onde não havia tratamento disponível. “Nós ficamos sem avanços nesse campo por muitos anos, décadas”, disse à ISTOÉ o médico que conduziu a pesquisa, Luis Paz-Ares. “Resultados robustos assim eram muito aguardados.” A segunda promete mudar a forma de cuidar de pacientes que sofrem de outro tipo de tumor pulmonar, mais avançado. “Nós concluímos que esse será o novo padrão de tratamento para pacientes com essa forma de câncer”, afirma o doutor Suresh Ramalingam, responsável pelo estudo.
CONGRESSO Luis Paz-Ares, que conduziu os estudos do Durvalumabe: resultados robustos (Crédito:Divulgação)
A primeira pesquisa foi sobre testes clínicos do novo remédio Durvalumabe, que funciona inibindo uma proteína ligada à ação de células cancerígenas. Poderão usar o medicamento pessoas que tenham tumor de pulmão “não pequenas células” (mais de 80% dos casos) em estágio 3 (espalhado em vários pontos do mesmo órgão) que não possam ser operadas. Os cientistas descobriram que o Durvalumabe diminui pela metade a chance de a doença progredir, num período em que os médicos só podiam aplicar quimio e radioterapia e desejar o melhor – o que é incomum. Para 85% dos pacientes, o câncer acaba avançando. “Atualmente, tudo o que nós podemos fazer é esperar e observar”, diz Mohammed Dar, vice-presidente de biologia clínica da MedImmune, subsidiária da farmacêutica AstraZeneca, que desenvolveu o composto.
O segundo estudo foi sobre os exames do novo remédio Osimertinibe, que inibe mutações que ajudam o câncer a crescer. Poderão usar o medicamento pessoas que também tenham o mesmo tumor de pulmão “não pequenas células”, mas em estágio 4 (quando ele já se espalhou por vários órgãos) – e que possuam uma mutação no gene EGFR (que ajuda no crescimento do câncer e infelizmente é frequente, acometendo 15% da população ocidental e 35% da asiática). Descobriu-se que o Osimertinibe é 54% mais eficaz do que as drogas hoje existentes para combater essa mutação no que se refere à progressão do tumor. Ainda são esperados dados para se saber se ele também diminui o risco de o paciente morrer da doença, o que é plausível, porém que ainda não está provado em definitivo. “Atualmente, não vejo competição para esse tratamento”, afirma Klaus Edvardsen, chefe global de desenvolvimento de medicamentos oncológicos da AstraZeneca.
As duas novidades surfam na esteira do que é descrito como um a época de ouro no combate ao câncer, envolvendo imunoterapias (Durvalumabe) e terapias-alvo (Osimertinibe). Ao contrário da quimio e da radioterapia, elas poupam células saudáveis. Para entender como funcionam, imaginemos que os tumores sejam carros querendo chegar em casa. As terapias-alvo bloqueariam uma das ruas que pudesse servir de caminho, apesar de outras poderem continuar abertas. Já as imunoterapias usariam o próprio sistema de defesa do organismo para chamar a polícia e prender o condutor, independentemente do caminho.
As duas pesquisas ficaram entre os maiores destaques do Esmo, um dos maiores congressos do mundo na área. “Foram dois dos estudos mais importantes apresentados”, diz o médico brasileiro Fabio Kater, do hospital BP Mirante, em São Paulo. De acordo com a médica italiana Floriana Morgillo, da Segunda Universidade de Nápoles, “os impactos nas doenças são grandes, então se espero que sejam aprovados o mais rápido possível”. Ainda não há data confirmada para que as agências internacionais aprovem as indicações, mas a expectativa é que em até um ano eles estejam disponíveis ao público.
Impactos psicossociais da quimio são maiores que os físicos
Alguns dos destaques do Esmo que não aparecem em outros grandes eventos semelhantes dizem respeito ao bem-estar das pessoas com câncer. Nesse ano, chamou atenção uma pesquisa que descobriu que os efeitos psicossociais da doença são maiores do que os físicos. Os cientistas analisaram pessoas com câncer de mama e ovário e perguntaram o que mais lhes incomodava. Os primeiros lugares ficaram com “dificuldade de dormir” e “como isso vai afetar meu parceiro”. Num estudo igual feito em 1983, os campeões eram “vômito” e “náusea”. Para Beyhan Ataseven, que conduziu o estudo numa clínica de Essen, Alemanha, isso se deu porque os tratamentos melhoraram. “A prevalência dos problemas de sono nos surpreendeu, pois eles não apareciam anteriormente”, afirmou à ISTOÉ. “Deveríamos ao menos perguntar aos pacientes se eles querem prescrições de remédios para dormir.”
ENTENDA OS AVANÇOS
Os remédios que ajudam na luta ao câncer de pulmão
Durvalumabe

> Como funciona: Inibe a proteína PD-L1, ligada à ação de células cancerígenas
> Para quem: Pacientes com câncer de pulmão estágio 3 (espalhado pelo órgão)
> Resultados: A progressão diminuiu em 48%, numa fase para a qual não havia drogas
Osimertinibe
> Como funciona: Anula mutação que estimula o crescimento do câncer
> Para quem serve: Pessoas com câncer de pulmão em matástase e mutação EGFR
> Resultados: A evolução diminuiu em 54% em relação ao tratamento-padrão

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Verão 2017: confira dicas para entrar em forma

Novos aparelhos de estética prometem corpo esbelto rápido. Dieta e exercício têm resultado certeiro

Rio - Faltando três meses para o verão, foi dada a largada para o corre-corre às academias e dietas. Tudo para chegar com corpo bem definido e saudável à estação do ano mais querida dos cariocas. Mas é possível ganhar um visual sarado até lá? Segundo alguns especialistas, sim. Tanto naturalmente, quanto por equipamentos modernos, que, em alguns casos, prometem modelar o físico em 20 minutos. Nutricionistas e preparadores físicos mostram caminhos saudáveis para se atingir o corpo adequado e bem estar sem gastos extras.
Para Olivia Andriolo, hábitos saudáveis deixam o físico e mentesadios Divulgação
Para combater a flacidez e a gordura localizada, porém, são necessários acompanhamentos médicos e nutricionais. Também é preciso ter cuidado com exageros e atenção às restrições. No quesito tecnologia, três aparelhos chegam cheios de promessas. O mais novo, não invasivo, a laser, que chegará ao Rio nas próximas semanas, importado de Israel, é o Alma Prime. Promete modelagem do corpo em menos de meia hora, com ondas de ultrassom.
Tratamento estético Arte O Dia
"Em até seis sessões, conforme pesquisas, em intervalos de uma semana a 15 dias, o paciente consegue excelentes resultados", explicou o dermatologista Thales Brettas, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Cada sessão custará R$ 500.
Thales lembra que o Alma não pode ser usado por grávidas, portadores de marca-passo, menores de 12 anos e quem tem problemas de circulação: "Fica pequena vermelhidão e sensação de calor local passageiras". Mais informações no site www.lbtlasers.com.br.
Thales Brettas será um dos primeiros dermatologistas a operar o equipamento Derma Prime no Brasil Divulgação
Dois outros equipamentos causam frisson. Um deles é o TightSculpting. "Permite esculpir o corpo e dá mais firmeza a pele", garante a dermatologista Paula Chicralla, também da SBD. A profissional explica que a combinação de ondas de lasers destrói células gordurosas, através de aumento da temperatura, sem lesionar a pele, e estimula a produção de colágeno. O processo promete reduzir gordurinhas no abdome, flancos, costas, coxas, braços, seios, nádegas e papada. O preço é salgado: R$ 1 mil por sessão.
O outro aparelho é o Coolsculpting, com ponteiras, para reduzir até 30% de gordura em uma sessão. O tratamento inovador é a base de Cryolipolysis, no qual células gordurosas são eliminadas com o frio. Tudo sem corte, sem anestesia, ou substância injetável.
Cássia Oliveira, nutricionista: "Dieta balanceada e exercícios evitam tratamentos caros" Divulgação
Olivia Andriolo, especialista em pilates, treino funcional e idealizadora do método Emagrecimento Corpo D21, lembra que os hábitos saudáveis no dia-a-dia mantém a boa saúde física e mental, dispensando a necessidade de se apelar para equipamentos emagrecedores. "E melhoram a autoestima, os sintomas de depressão e ansiedade, reduzindo riscos de doenças cardíacas".
A nutricionista Cássia Absolon (que dá as dicas de alimentação saudável no quadro ao lado), da Clínica Prevenf, lembra que nenhuma dieta é milagrosa. "É preciso reeducação alimentar, com novos hábitos. Dietas da moda são prejudiciais", alerta.
O educador físico Daniel Pinheiro, do Grupo São Cristóvão Saúde, reforça a necessidade de aquecimento antes de se exercitar, para evitar lesões. "A intensidade de cada exercício deve ser ajustada de acordo com cada um", recomendou.
DICAS DE ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL
Prefira frutas, legumes e verduras, que são menos calóricos do que alimentos industrializados
Aumente a ingestão de água e sucos naturais. Evite refrigerantes
Dê preferência a chás gelados, de baixas caloria
Diminua o consumo de sal, pois o sódio aumenta a pressão arterial e retém líquido, causando inchaço
Evite frituras e salgadinhos
Prefira carnes magras: peixe, frango e patinho (carne vermelha). Assadas ou grelhadas
Consuma alimentos integrais, para melhor funcionamento intestinal
Paula Chicralla: "Tecnologia segura e resultados rápidos Divulgação
Troque um doce por uma fruta
Evite temperos prontos, que têm mais sódio e conservantes
Priorize temperos frescos como alho, cebola, salsa, e manjericão
Durma bem e acorde cedo
Exercícios físicos: mínimo três vezes por semana e, no máximo, cinco vezes, com média de 30 a 90 minutos, dependendo da capacidade física